quarta-feira, 1 de abril de 2015

WASHINGTON VILÃO OU HERÓI?


Muito fácil para alguns condenar Washington; muito difícil para muitos admitir que a prática de Washington é minimamente ilegal. Essa denúncia da TV Alterosa  sobre atividade de Washington a qual a cidade conhece bem e, na prática muitas vezes, provou uma das maiores mobilizações da população que já se viu em Sete Lagoas, que em sua grande maioria se manifesta em defesa de Washington da Drogaria Lobato.

E tamanha reação merece ser melhor entendida. Ou como explicar que uma atividade que poderia, em tese, ser enquadrada como crime, como quer fazer crer a TV Alterosa a partir de sua matéria, ser maciçamente, frontalmente e de forma indignada defendida pelas pessoas em Sete Lagoas? É certo que há nisso tudo um precioso conhecimento a ser aprendido sobre as particularidades de nossa cidade. Portanto, não dá para desperdiçar essa oportunidade que se abre com esse verdadeiro advento para entender o que é Sete Lagoas e o que está acontecendo com Sete Lagoas. Bora trabalhar?

Bem, Washington é esse bondoso homem que trabalha dia e noite para servir as pessoas necessitadas de atendimento sejam elas de que classe for? É o que faz questão de dizer centenas e centenas de pessoas, que também contam casos e mais casos de atendimento, testemunhando do valor desse homem para elas.

Diante disso, ainda que se possa enquadrar o seu trabalho dentro de uma atividade ilegal, o povo confere-lhe uma impressionante legitimidade empírica. E, assim, olhando por esse significado que o trabalho tem para a população sete-lagoana se é obrigado a ir além avaliação puramente legalista e puritanista.

Essa realidade concreta, entretanto, não pode impedir que se faça também a análise à luz do legal, do certo e do errado para o que é o padrão da melhor prática nessa área vital que trata da vida humana, tratando da saúde das pessoas – paciente, médico e farmácia.

Mas para avançar nessa análise que vai longe coloco a seguinte questão: Essa demanda pelo atendimento do Washington existe por que falta o serviço de saúde ou essa é uma demanda que existe por que a oferta do serviço do Sr. Washington a criou? Difícil saber, não é? Talvez a resposta mais lógica é: as duas coisas. E aqui óbvio não está se falando da indicação dos remédios de venda livre, não, é sim da prestação de serviços feita pelo Sr. Washington que ultrapassa esse limite.

O fato é que grande parte da população já incorporou o Washington como o seu doutor de confiança para tratar de saúde e as autoridades locais sempre fizeram vistas grossas para essa realidade. E o que se constata agora é que a população reage veementemente contra o que pode ameaçar essa prestação de serviços. Ou seja, se criou uma cultura, um hábito, que hora está sendo retirado de Sete Lagoas, por uma ação entendida pelo sete-lagoano como intrusa, a TV Alterosa, que ainda é acusada pelo povo de estar agindo a mando de terceiros.

Se tem ou não qualquer fundo de verdade essa acusação não é ponto aqui. Mas o que para essa análise e entendimento o objeto principal do escrutínio é a existência do serviço prestado pelo Washington em si e a reação das pessoas diante da veiculação da notícia pela emissora de TV.

Esse comentário sintetiza um pouco esses pontos. “A saúde púlblica de sete lagoas esta doente, no hospital municipal fica gente nos corredores demora até o dia inteiro para ser atendido e esses jornalistas sem o que fazer nunca fizeram matéria a esse respeito enquanto muitos opinam pelo atendimento da lobato que é de graça e rapido e resolve, enquanto em hospitas ou posto de saude além de demorar o atendimento é muito rapido de qualquer jeito.”

E se nota que essa situação era cômoda para todos: pacientes, autoridades e Lobato. Mas essa comodidade é a coisa certa olhando-se sob o ponto de vista da saúde da população? Ora muitas pessoas vão afiançar, como está em diversos comentários no face, que sim. Mas qual é a autoridade técnica que estas pessoas para isso?

Vejam mais dois comentários:

Denise Cássia
O povo setelagoano, ou pelo menos a maioria, está do lado de Washinton, que resolve com presteza e eficiência o oficio de médico, mesmo não tendo o diploma em questão... Porque se dependéssemos somente da saúde pública (P.A, HOSPITAL MUNICIPAL, HOSPITAL REGIONAL - que não saiu do papel até hoje, diga-se de passagem) estariamos todos "ferrados"...

"Leonardo, infelizmente existe uma diferença muito grande entre o ideal e o real!!! Nos ultimos anos, independentemente da pessoa que estava à frente do executivo da cidade, nada se investiu em saúde!!! Os bons médicos de Sete Lagoas não estão atendendo nem convênios, cobram uma fortuna por uma consulta, os dos SUS e convêniados parecem que trabalham com raiva ou formaram medicina nos baquinhos dos butecos em frente as faculdades, pois nada sabem!!! Enquanto isso, a quem restava recorrer quando alguma doença assolava o módico cidadão setelagoano? O NOSSO VELHO E BOM AMIGO WASHINGTON!!!!!", fala de Ricardo Ferreira.

Voltei
Sem me posicionar ainda sobre esses comentários especificamente o que vê nessa atuação do Washington é que ela é apenas uma evidência de uma cidade que como regra escolheu viver no improviso. Na falta de identificação de ruas - se vê isso, na falta de qualidade da água – se vê isso, na falta de tratamento de esgotos que correm pelas ruas – se vê isso, na falta de escolas para cobrir a demanda – se vê isso, na falta de médicos, leitos hospitalares, de postos de saúde... – se vê isso. Dessa forma Washington é mais um produto e um produtor desta cidade, que aprendeu a viver da solução improvisada do médico, da água mineral ou da bica, do nome de ruas nos postes, e de outras dezenas de quebra-galhos.

Mas vamos seguir em frente porque se já pudemos chegar a alguns entendimento sobre o que é Sete Lagoas é preciso verificar o que está acontecendo com Sete Lagoas. Então, agora aproveitando o comentário de Ricardo Ferreira, precisamente este ponto: “Leonardo, infelizmente existe uma diferença muito grande entre o ideal e o real!!! Nos ultimos anos, independentemente da pessoa que estava à frente do executivo da cidade, nada se investiu em saúde!!!”

Vejam, se repararem está tudo aí neste comentário. Sete Lagoas aprendeu a conviver com essa realidade precária. Sabe que essa não é a situação ideal. O problema não é não ter a situação ideal é não persegui-la. E ir vivendo há décadas mesmo sem investimento em saúde, em educação, em saneamento, em asfaltamento, em infraestrutura geral e muito mais. Desta forma ao povo resta sempre um “velho e bom amigo” que nos salve. Mas é sustentável continuar assim?

Não, não é. E o que se vê é quando a própria cidade não tem a coragem de romper com essa situação terceiros o fazem e de forma traumática como está acontecendo com o Washington. Reparem uma coisa, essa prestação de serviços do Washington não nos escandaliza como cidadãos sete-lagoanos, mas tenham certeza ela é absurda para muitos outros lugares onde este não é o padrão. E assim é e se tornará um tremendo escândalo também, por exemplo, o dia em Minas e Brasil ficar sabendo concretamente que em Sete Lagoas, que tem água implícito no nome da cidade as pessoas não tem disponibilidade deste bem em suas casas seja em quantidade e qualidade, seja apenas em qualidade. E mais: que água que chega na sua casa não é tratada. São situações que só existem em Sete Lagoas? Não, claro. Mas Sete Lagoas diferente de outros lugares do mesmo porte o quadro é de gravidade generalizada e o povo se escandaliza é com a revelação destas situações, não as situações.

O que Sete Lagoas é já está mais claro, creio, mas o que está acontecendo com Sete Lagoas? Ela está ficando nua e apesar da sua beleza natural todo mundo de fora ta vendo que ela não se cuida e trata muito mal sua gente.

ADENDO AO TEXTO ACIMA
O que há nesse texto acima é uma exposição da dura realidade de escassez total dos bens públicos em Sete Lagoas para as pessoas, e fazem com que o tipo de atuação (Não só em saúde) como a do Washington seja peça chave para aliviar e aprisionar o povo. Um verdadeiro paradoxo, sim. O povo que não tem o serviço público de qualidade que deveria ter recorre ao que lhe serve como presteza no momento imediato que precisa e isso se torna um hábito, que acomoda a todos. A cidade passa a viver no improviso, no quebra galho, que passa ser o caminho da sobrevivência e se torna definitivo e natural. E se disse bem em um comentário, as pessoas de outras cidades, que não conhecem e e estão habituadas a outro padrão, acham isso terrível, mas que Sete Lagoas é normal, é a regra. Quem tá certo? Não sei. Essas cidades que disponibilizam um melhor serviço e impede que se crie uma atuação paralela ou as autoridades de Sete Lagoas, que não fazendo o que tem que ser feito, deixam ou até incentivam existência dessas as válvulas de escape que alivia o povo, que também se acomoda.

Acontece que Sete Lagoas passa por um processo de ruptura, que não está mais sob seu controle, desta forma a cidade sofrerá uma série de mudanças traumáticas como essa do Washington que foi surpreendida, por uma ação considerada mesmo intrusa no seu funcionamento. Imagina o dia em o Brasil descobrir que na cidade dos lagos - das lagoas - o povo vivem como semiárido nordestino em termos de água, seja pela falta de qualidade da água, seja escassez dela. E ainda descubra que em Sete Lagoas a água NÃO é tratada e muito menos fluoretada. Será um tremendo escândalo para eles, não sei se para Sete Lagoas. E será que essa ação feita terceiros, por quem não vive aqui, também seria considerada intromissão nos assuntos próprios, em costumes internos do povo de Sete Lagoas?.

PS.: E concordo com quem disse que esses debates na rede (diga-se facebook) são realmente muito positivos e, certamente, pode ajudar muito SE AJUDAR A IR ALÉM DO BRIGA. É só ver como essa questão do Washington suscitou o debate da saúde em Sete Lagoas e, PRINCIPALMENTE, COMEÇA A FAZER A CIDADE OLHAR PARA SIM MESMA. Aliás, como sabem os meus amigo aqui do blog é o que mais desejo é que Sete Lagoas se conheca melhor e faça ela mesma uma autocrítica.

NOVA ATUALIZAÇÃO, COMENTÁRIO DE Carine Calixto no face:
Ótimo ponto de vista. O que me assusta é a tamanha conivência das pessoas. O mesmo ocorre nas favelas Brasil afora... Não tem problema os crimes que os milicianos cometem, eles são bonzinhos e ajudam a população. Eles dão a segurança que opoder público não proporciona, a tv a cabo, a internet barata, etc. O mesmo ocorre com o Sr. Washington, não tem problema ele exercer medicina ilegalmente, afinal ele é bonzinho e faz aquilo que o poder público não faz... O que as pessoas fazem questão de fechar os olhos é que nessa onda a farmácia dele fatura, e muito. É mais fácil aceitar o que ele faz, do que cobrar do prefeito e do governador um atendimento melhor nos hospitais e postos de saúde. O que as pessoas não entendem é que ele não é capacitado para exercer medicina, e que isso coloca em risco a vida da população. Até onde se sabe, ninguém foi prejudicado em decorrência dos atendimentos dele, vamos esperar o pior acontecer?